"Além dos sinais externos que denunciam - cabelos brancos, cabelo nenhum, rugas, barriga, essas indignidades - as gerações se reconhecem pelos jogadores de futebol que se têm na memória"

Luis Fernando Veríssimo

4 de mar. de 2012

O errado que dará[?] certo

Está todo mundo errado. A verdade é que o envento nasceu de forma errada e, inevitavelmente, dará "errado". Ou melhor, dará certo, mas pelos meios e razões erradas. "O errado que deu certo", um bom jargão para a Copa de 2014.



As manchetes do dia dizem que a declaração do ministro Aldo Rebelo em resposta a Jérôme Valcke expuseram o racha entre o relacionamento do governo brasileiro com a entidade máxima do futebol e uma crise que até então estava sendo controlada nos bastidores. Piada.


Aldo Rebelo, Ministro do Esporte e Jérôme Valcke secretário da FIFA para assuntos relacionados à Copa do Mundo

Qualquer um que acompanhe um pouco mais de perto sabe que a boa relação do governo anterior com a FIFA era fachada. A FIFA dizia o que bem entendia, mandava e desmandava, bradava, ordenava e os então presidente e ministro do esporte, Lula e Orlando Silva simplesmente acatavam.

Fato é que o Brasil assinou o documento intitulado "Garantias Governamentais" em 2007, quando conquistou o direito de sediar a Copa e agora se recusa a cumprir os 11 tópicos firmados na ocasião. A FIFA por sua vez, representada por Jérôme Valcke, insatisfeita com a demora em relação as obras e a aprovação da Lei Geral da Copa, demonstra total desrespeito com declarações esdrúxulas, para dizer o mínimo.


Entender o problema é simples: A Copa do Mundo voltou ao Brasil por inúmeras razões que em nada tem a ver com esporte. Interesses de meia dúzia de aliados que simplesmente fizeram do futebol brasileiro seu "brinquedo" e uma marionete para atingir objetivos de interesses pessoais ou profissionais. Cada qual no seu "quadrado", todos foram beneficiados. Porém, como um tripé que não se sustenta ao perder uma de suas bases, as coisas começaram a demoronar para essa "quadrilha" quando o prazo de validade da principal perna do tripé expirou, em 01/01/2012.

Ricardo Teixeira e o ex presidente Luiz Inácio Lula da Silva
 
Dilma Roussef assumiu o a presidência como uma espécie de  "Capitão Nascimento", limpando -perdoem-me o termo chulo- a m.... feita por gestões anteriores. E depois de mais de 20 anos sobre o comando de Ricardo Teixeira, m.... é o que não falta no futebol brasileiro.

10 de fev. de 2012

Notícias novas [e velhas] que não fazem sentido

A correria do dia a dia - trabalho e estudo - tem me impedido de atualizar o blog com a frequência costumeira, porém, não tem me impedido de notar a incoerência que tomou conta do futebol nesse início de temporada.

Time em que o principal jogador e capitão da equipe - que teoricamente deveria dar o exemplo - faz o que bem entende, exerce a indisciplina a olhos vistos e rende muito abaixo do esperado dentro de campo, vence uma guerra declarada com o treinador, que reclamou do seu comportamento - aparentemente sem razão [?!] - e o derruba do cargo.
[Ah sim, Ronaldinho estava com salários atrasados, logo sua indisciplina é compreensível, afinal, deve estar quase sem ter o que comer]


Longe de mim querer bancar o advogado do diabo e defender Vanderlei Luxemburgo - que há muito esqueceu da sua função de treinador e passou a se comportar como um empresário - mas ao meu ver a decisão de demitir o treinador foi pura e simplesmente uma escolha por valores - que já foram gastos e que poderiam vir a ser. Apesar de achar que havia muitas outras questões extra oficiais entre comissão técnica e diretoria e de considerar o marketing rubro-negro o pior do país; ou você já viu alguma grande ação explorando a imagem do camisa 10 tal como tantos outros clubes fazem com seus craques multiplicando suas rendas?

Porém, contudo, entretanto, redundantemente deixemos o extra campo de fora. Dentro dele há coisas estranhas acontecendo.


Felipão continua tirando leite de pedra - normal. Pediu camarão, recebeu sardinha enlatada e venceu os filés de salmon de maneira apoteótica - se não entendeu a piada deixe seu email nos comentários que retornarei a explicação. Está definitivamente onde Luxemburgo não mais está: entre os principais treinadores do país.

Arsene Wenger - Está no comando dos Gunners desde 1996

E a estranheza continua. O Paulista de Jundiaí está sobrando em um campeonato onde o Palmeiras é líder, temporário, mas líder. Dedé fez um gol contra - isso é realmente inacreditável - e Cristóvão Borges passou de "super revelação" de treinador para "burro" em noventa minutos. O campeão brasileiro esqueceu o futebol em 2011, joga mal e goleia de 1x0. Mas isso não é estranho, é filme repetido. Na terra da rainha, em pleno Old Trafford o Manchester United cai de 6x1 para o rival Manchester City - avisei no título que haviam notícias velhas - enquanto Arsene Wenger corre sério risco de ser demitido do comando do Arsenal depois de mais de 20 anos.

 
Teoria no futebol não se aplica - isso não é novidade. Aliás, o futebol não fazer sentido tampouco é novidade. Novidade mesmo será o dia em que a incoerência der lugar a sua antagonista, coerência, num mundo onde nada tem uma definição permanente.

21 de jan. de 2012

Profissionalismo dispensável

Em todo recesso do calendário, onde as principais notícias são as movimentações de mercado, paro para refletir como alguns valores estão se perdendo - se já não estão extintos - em meio ao dinheiro e aos interesses que passaram a vigorar no mundo do futebol.

Parece que a falta de identidade é o preço a ser pago pelo chamado "profissionalismo" no esporte. Profissão e vantagens regem contratos e quebras do mesmo sem a menor cerimônia se assim for vantajoso para todos os lados. Esquece-se e relembra-se sem o menor pudor a trajetória desse ou daquele jogador com determinada camisa. Ídolos passam a ser repudiados e voltam a cair nas graças da torcida em um curtíssimo espaço de tempo.

O profissionalismo necessário no futebol é aquele que aperfeiçoa determinadas áreas que precisam de melhorias. Aquele que acaba com o amadorismo e qualifica profissionais com os perfis corretos para melhorar a gestão esportiva das instituições.

Porém, dispensa-se o "profissionalismo" que visa apenas interesses próprios e financeiros, ainda que todos - leia-se jogador, clubes e empresários -  sejam beneficiados em uma negociação. Vestir a camisa de um clube significa muito mais do que o cumprimento de um contrato de trabalho, significa representar o sentimento de milhões, para muitos o sentido de uma vida.

Identidade. Paridade absoluta entre torcida e time, fundamental quando se trata de algo tão importante na vida de alguém. E se a falta dessa identidade é o preço a se pagar pelo "profissionalismo", precisamos rever as prioridades.

13 de jan. de 2012

Mais próximos da extinção

Época chata para se falar de futebol em solo brasileiro. Salve a "copinha" - que aliás está bem esquisita diga-se. Time que ganha de 10x0 eliminado na primeira fase de mãos dadas com o atual campeão, mas enfim...nome disso é futebol - tudo que se vê nos noticiários são números e entraves contratuais que impedem esse ou aquele jogador de se transferir para esse ou aquele clube. Uma chatice burocrática, necessária, mas cansativa.

Entretando, em meio a correria dos bastidores, um fato importante e muito relevante ao futebol brasileiro foi anunciado: a aposentadoria "precoce" de um ícone do futebol nacional, Marcos.

Coletiva de despedida

É comum ouvirmos no dia a dia do futebol o nome de Marcos ser citado como sinônimo de "amor a camisa". Considerado como um dos últimos torcedores-jogadores do futebol mundial, a aposentadoria do "São Marcos" significa um passo adiante em direção a extinção de um sentimento cada vez mais raro no esporte: comprometimento real com a instituição que se defende. Não apenas profissionalmente, mas de alma e coração.

Marcos é um dos maiores ídolos da história do clube que ironicamente construiu sua carreira em tempos de "vacas magras" e crises sem fim, criadas quase que em sua totalidade "de dentro para fora", e sofreu mais do que ninguém por conta disso.

Marcos não foi goleiro do Palmeiras, foi um torcedor que possuiu uma posição privilegiada: a de poder entrar em campo e ajudar seu clube de coração. E por conta desse privilégio, foi personagem principal de uma cena antológica...


Amou e viveu tudo que envolve esse sentimento. Sorriu, sofreu e por vezes enfiou os pés pelas mãos guiado por uma emoção irracional. Amou.

Marcos é exemplo. É homem. É caráter. É comprometimento. Felizes os palmeirenses que puderam por anos a fio vestir suas camisas para torcer por alguém que compartilha exatamente o mesmo sentimento que eles.

4 de jan. de 2012

2012 começa hoje

Férias. Fundamental. Primordial. Essencial. Se desligar até mesmo dos maiores prazeres as vezes é importante. Limpar a mente, se reciclar, tempo para rever seus conceitos, e quando trata-se de um assunto tão dinâmico quanto futebol, esse tempo pode agregar novas visões e perspectivas animadoras.

Como nosso magnífico calendário continua o mesmo, o ano começa exatamente da mesma forma: especulações, novelas, disputas por reforços, clube comprando de baciada, outros buscando contratações cirúrgicas e todos passando - tentando - a impressão do tal planejamento - que certamente irá por água abaixo na primeira sequência de derrotas.

Contudo, nem tudo são bastidores nesse início de ano. Começa hoje o maior e mais importante - sim o mais importante embora tratado com absoluto descaso - campeonato de futebol do Brasil: A Copa São Paulo de Futebol Júnior. O futuro. O único campeonato onde ganhar o título não é uma prioridade.

Revelar talentos e jovens valores, implantar filosofias nas categorias de base que agreguem qualidade e transformem a forma de se praticar futebol em uma instituição, trabalhar a parte mais importante do clube: a infraestrutura.

Início de novo ano, época de rever os planos e definir prioridades. Que o futebol brasileiro passe a tratar a Copa São Paulo com a importância que lhe é devida, caso contrário, ela continuará a ser exatamente o que é: um banquete para empresários ávidos por dinheiro.

19 de dez. de 2011

A linha do tempo


Inapelável. Frustrante como qualquer derrota - algo normal e aceitável. O Santos não conseguiu endurecer o jogo como se esperava tinha esperança que fizesse. Respeitou demais seu adversário - que é merecedor de tal respeito, diga-se - e pagou o preço por isso.

Se você acompanhou a partida de hoje agradeça pela oportunidade. O mundo acaba de se render ao último time da "linha do tempo" do futebol. Linha do tempo que realmente permanece eterna, que realmente vale a pena ser lembrada.

A Hungria de Puskas, o Real Madrid de Di Stéfano, o Santos de Pelé, o Ajax de Rinus Michaels, a Holanda de Johan Cruyff, a seleção brasileira de 82, o Milan de Van Basten, o Barcelona de Messi...
  
Times que não foram "apenas" grandes times - grandes times houveram e haverão centenas - mas que marcaram época por reinventarem a forma de se praticar o esporte.

Cada vez que o Barcelona entra em campo, vemos uma página de um capítulo da história do futebol sendo escrita. Por parte dos adversários não há o que fazer além de aceitar e reverenciar. A era Barcelona só será encerrada pelo próprio Barcelona. Todas, absolutamente todas as forças do futebol mundial já tentaram; o que se tem de melhor no planeta já ousou desafiar a supremacia catalã e todos foram derrotados com extrema autoridade pelos espanhóis.

A superioridade é tanta que ser goleado por eles não é vergonha alguma, tampouco perder, e até mesmo a dor da derrota é amenizada. Apenas a oportunidade de desafiá-los por 90 minutos já deve ser encarada como uma honra, e uma chance única de "aprender" a jogar futebol.

O Santos tentou e assim como tantos outros fracassou. O placar é indiferente, o Barcelona o constrói como e da forma que desejar, independente de quem esteja do outro lado, e até mesmo a pouca atitude do time santista é perfeitamente compreensível diante de um time que transcende a realidade do futebol.


O Barcelona é hoje o dono do mundo, mas não pelo troféu conquistado, mas por tudo que representa. E o será até o dia da renúncia. Aos demais cabe aceitar, reverenciar, observar e aprender. E é bom que se diga, o Santos está no caminho certo: o caminho que conduz a "linha do tempo" do futebol.

12 de dez. de 2011

A tal da fórmula mágica

Futebol não é uma ciência exata - clichê. Não há fórmula mágica para vencer partidas decisivas. Quando se chega a partida decisiva  de um campeonato, seja ele mata-mata ou pontos corridos, o segredo é não procurar segredos. O segredo, se é que podemos assim nomear, é manter exatamente o mesmo trabalho que tem sido feito até então. Mudar no momento derradeiro de um campeonato significa abrir mão de suas características e quase sempre o time que o faz paga preço alto por tal escolha.

Alemanha x Gana - Copa do Mundo 2010
 
Talvez o melhor exemplo que tenhamos visto nos "últimos tempos" seja a seleção alemã. Melhor futebol da Copa do Mundo de 2010, até encontrar a "temida" Espanha e permitir que o excesso de respeito minasse suas ambições de vitória. Hoje, a Alemanha joga o melhor futebol do mundo - e que futebol ! - , chegará a Copa de 2014 como força a ser batida e não fosse a postura adotada em uma única partida, aquela semi final diante da Espanha, e os alemães poderiam chegar ao Brasil lutando pelo penta, e não pelo tetra.

Espanha 1 x 0 Alemanha - Semi-final da Copa do Mundo 2010

É claro que essa é uma visão simplista de um esporte de muitas variantes e que passa longe da simplicidade. "Manter suas características" é referente a essência de seu futebol e não a mudanças táticas e técnicas que podem sim, eventualmente, fazerem a diferença. A questão é que se seu time é essencialmente ofensivo - caso da Alemanha na África do Sul - recuá-lo para jogar de maneira defensiva (contra-ataques) diante de um time taxado como "favorito" é suicídio. Não se assimila uma nova ideologia de jogo em uma única partida.

E é exatamente essa postura - manter sua essência - que o Santos deve adotar se desejar ter o mínimo de chance de realizar o que nenhum outro clube no mundo conseguiu: desbancar um dos maiores times da história do futebol - "o maior time de todos os tempos dos últimos vinte e quatro anos", idade de quem vos escreve. 

Real Madrid 1 x 3 Barcelona - Mais um show de Messi e cia.

Como vencer um time que cria espaços onde eles não existem ? Como explicar um time que joga sem zagueiros, sem atacantes - ao menos fixos - com quatro volantes e goleia ? [Se alguém souber as respostas por favor postem nos comentários]

Porém, há uma pequena vantagem - se é que podemos assim denominar - a favor do Santos nesse duelo. Explico.

O Barcelona vem ao longo das últimas temporadas colhendo os frutos de um trabalho iniciado trinta anos atrás, exercendo um ideologia de jogo de futebol implantada em todas as categorias do clube, que prioriza a posse de bola e a presença no campo adversário. Com esse sistema de jogo - que eu particularmente considero o "novo futebol arte" - o Barcelona vem "engolindo" todos que cruzam seu caminho e nessa lista estão todas as escolas de futebol do mundo(representadas por seus respectivos clubes): inglesa, alemã, italiana, holandesa(embora o próprio Barcelona tenha muitas influências desta) espanhola, russa, francesa entre outras.

Johan Cruyff - Líder da Holanda de 1974 conhecida como Laranja Mecânica. Idealizador do futebol total. fez história como jogador e treinador do Barcelona, um dos responsáveis pelo futebol atual do clube catalão.

Contudo, há uma escola, única, que o clube catalão ainda não enfrentou e que portanto é desconhecida por eles do ponto de vista prático; a brasileira.

Enfrentar um clube brasileiro é diferente. Enfrentar um clube brasileiro que está em busca de um título mundial é muito diferente. Enfrentar um clube brasileiro que está em busca de um título mundial e conta com Neymar e Paulo Henrique Ganso para tanto, é um caso de exceção.

Os times brasileiros pecam pela instabilidade emocional diante da frieza extrangeira, mas possuem uma determinação e uma química diferente de qualquer outra escola do mundo em partidas como estas e diferentemente de outros anos, o representante brasileiro conta com um jogador de exceção, temido pelos adversários e que por isso, impõe um respeito que clube brasileiro nenhum conseguiu em anos anteriores.

As esperanças santistas
 
Ao mesmo tempo que a tarefa do Santos de 2011 é imensamente mais complicada do que a de brasileiros em um passado recente, o time da Vila também é muito mais qualificado para tal conquista, por isso, as razões para se acreditar e duvidar são proporcionalmente iguais e é bom que se lembre: o esporte em questão é futebol. O imponderável certamente aprontará das suas.